Foto: Pedro Vilela/Getty Images

Marília Mendonça: piloto se comunicou por rádio com equipe do avião 2 minutos antes da queda

Conversa indica que faltavam dois minutos para o aviãopousar antes do acidente

 

Cantora e mais quatro pessoas morreram no acidente da últimasexta-feira (05)

 

Uma das hipóteses para o acidente é que a aeronave em queestava Marília tenha batido num fio de uma dessas torres

 

A conversa se deu por rádio, na frequência local. É umprocedimento normal nos cerca de cem voos por mês que são feitos no Aeroportode Caratinga. Detalhe: ele fica na fronteira com o município de Ubiporanga.Então, para alguns, é o Aeroporto de Ubiporanga. Aeroporto não, ele é umaeródromo, sem voos comerciais, o que o desobriga de ter torre de comando,entre outros protocolos. Era nele que o avião que transportava a cantoraMarília Mendonda e outros dois passageiros, além do piloto e do copiloto,deveria ter pousado na tarde da última sexta-feira (5). Tudo indica que oacidente aconteceu dois minutos antes de a aeronave estar em solo. O "tudoindica" passa por uma conversa entre o piloto que guiava o avião e outropiloto da região.

 

Os dois se comunicaram por radiofrequência naquela tarde. Opiloto, que opera alguns aviões de empresários locais e por isso é experienteno mapa cartográfico de lá, inclusive deu seu depoimento para os órgãosresponsáveis por investigar as possíveis causas do acidente.

 

Segundo ele, que prefere ficar no anonimanto, o piloto doavião da PEC Táxi Aéreo comunicou por radiofrequência que estava "pegandoa perna de vento". O jargão técnico da aviação significa que ele estava naúltima etapa do pouso, a reta final para alcançar a pista. Subadministrador doAeroporto de Caratinga, Roni Macedo calcula que a aeronave estava a 4,8 km nahora da queda. Calculando em tempo de voo, isso dá em torno de dois minutos.

 

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Ainda no depoimento, o piloto de Caratinga disse que, diantedessa informação, respondeu que também tinha intenção de pousar no mesmo local,mas que ainda faltava cerca de dez minutos para isso. Depois desse diálogo, nãohouve mais qualquer interação.

 

— É tempo mais que suficiente para acontecerem os doispousos em segurança. Tanto que o outro piloto chegou como previsto — explicaMacedo.

 

Aeródromo pequeno e terceirizado

O aeródromo de Caratinga é pequeno, categoria 1 pelaclassificação da Anac. Como faltam recursos para o poder público dos doismunicípios bancarem sua manutenção e sobram aviões particulares na região, hácinco anos a administração foi terceirizada, por decreto. Segundo Macedo, é umagestão não remunerada. Ou seja: quem cuida não ganha, mas também não gasta.

 

Como assim? Seguinte: o aeroporto é custeado por empresárioslocais, nume espécie de vaquinha. O valor varia de um mês para o outro,dependendo do que precisa ser feito.

 

— Tudo de uma maneira muito amistosa, conversado em almoçosentre os empresários — conta ele.

 

O dinheiro arrecadado nos encontros é empregado em reparosda pista, manutenção paisagística, iluminação etc. Ao longo dos anos, aestrutura vem passando por upgrades. Um hangar foi construído, assim comobanheiros e uma pequena lanchonete. O horário de funcionamento é: "entre onascer e o por do sol". Não há voos noturnos em Caratinga. Na rotinadiária do aeródromo, três funcionários dão expediente.

 

Manual de funcionamento

Não é preciso fazer "reserva" para usar a pista deCaratinga. Basta avisar por radiofrequência que pretende fazê-lo minutos antesdo pouso. Caso nenhum outro piloto manifeste a mesma intenção no mesmo horário,a autorização está automaticamente dada.

 

Mas é obrigatório que o piloto consulte um documento chamado"carta de aproximação". Nele ficam registrados os obstáculosexistentes no perímetro de 4 km do aeródromo. No de Caratinga, constam umconjunto de morros e a chaminé de uma cerâmica. As torres da companhia elétricaCemig não estão lá, pois ficam fora da obrigatoriedade de registro. Uma dashipóteses para o acidente é que a aeronave em que estava Marília tenha batidonum fio de uma dessas torres, e o fio teria se enrolado no eixo existente entrea hélice e um de seus dois motores. Macedo ressalta:

 

— Nunca nenhum avião foi visto voando tão baixo próximo dastorres. A grande pergunta é: por que isso aconteceu?

O GloboO Globo Gabriela Goulart

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